SUTURA

SUTURA
Raphael Vidal
“Reservo parte do dia para me informar sobre amenidades,
geralmente no balcão de um bar.”
[ Rodrigo Lima ]
Gengibre. Maracujá. Limão. Genipapo. Saideira. Ou não. Eles pedem uma gelada. Acompanhada. É fim de noite. A rua esvaziando, ficam os vadios, desalmados, insistentes. Depois, perguntam, ninguém sabe o motivo. Parece que esperam melhorar. Bebem para esquecer que bebem. É um hábito inexplicável, um prazer doloroso. A garganta molhada, a língua seca, o estômago vazio, a cabeça cheia. Pelos ouvidos, entre as conversas furadas, as frases sem eixo, os rumos desviados, a música é lenta, enrolada, confusa. De fora, tudo errado, ninguém quer, passam. Dentro, só uma preguiça, uma culpa gostosa. Não faz sentido, nada. Só mais um absurdo, automático. Alegria triste, sorriso envergonhado.
— Eu não pago.
No balcão, o cachaça, pinguço, pé inchado, enrola. Diz que não, apronta. É costume. Ninguém se vira, abre o olho, fica esperto. Isso acontece todo dia, madrugada. Deixa passar. Tiram como malandro Saci, que ao dar rasteira, leva tombo. Mas ele pisa firme, cerra o punho, mostra os dentes. Incomoda. Há os que fazem por dor. Precisam do flagelo, da queimação, aquela fisgada lá de dentro. São os que querem sentir. Alguma coisa, seja lá. Este se matar aos poucos, cruelmente, os fazem mais vivos. É complexo, afinal, como todo merderê.
— Já disse!
Então, age. Estes – homens – vivem o corpo. A ação é intrínseca, envolvida, enrolada, devedora, encachaçada, incorporada, satisfeita. Pega a ampola e quebra, está feita sua arma. Uma batalha contra o invisível. Aponta para seu passado, arruaça, esquece. Ele não existe. Grita. É vida que ele quer. Sangue. Espanto. Lá fora, estavam na última. Riam do acaso. Pediam licença pra caminhar. Até o grito, correria, ataque, furioso. E acertou. Fez-se o corte.
— …
Amanhece na sala de sutura, ficará a cicatriz, essa que um gole não os deixará esquecer.
Abre o olho, fica esperto …. a lembrança de um gole, agradece! rs
meu caro, recebeste meu e-mail? chaego ao rio, domingo. como entro em contato? Falôu! Claudinei
Conto deveras auto-biográfico. Será o viver a matéria-prima básica de um escritor? Não sei.
Roberto Lima
Muito, muito bom! Você não dança com as vírgulas, vc pede uma brahma e samba com elas!
Muito, muito, muito bom! Você não dança com as vírgulas, você pede uma brahma e samba com elas!
Falta só a garçonete trazer a Brahma que eu pedi… Enquanto isso vou sambando.