Sunday, January 4, 2009
Thursday, December 18, 2008
Monday, December 15, 2008
ARARIBÓIA lê MUQUIFO.

Ô boa notícia! Este ano, a turma 1001 da Escola Estadual Dr. Memória, lá de Cubango, terra de Araribóia, estudou os contos aqui do Muquifo nas aulas de literatura. A professora é a dedicadíssima Fernanda Santos. É só clicar aí no nome dela para conhecer seu blog. Parece que me apelidaram de “Malabarista da pontuação.” Dizem que coloco as vírgulas para rebolar… Tsc. Tsc. Tsc.
A formatura foi essa semana,

PARABÉNS! Vocês merecem.
E aqui vai meu agradecimento, certo?
Saturday, December 13, 2008
TEMPERADA

Temperada
Raphael Vidal
— Açafrão, cominho, erva-doce, pimenta-malagueta, hortelã e gengibre.
Fiz uma caridade, pedi penico, não posso? A quizumba toda a acontecer no bote, assumindo risco. Ia passar logo o sabonete, pois que disso meto os peitos, mas era barra suja, amarelei, não que fosse abrir, dar uma moleza assim, é que sou boca de siri, gosto de brisa mas assumo a bufa, vai que no dito cujo acabo que meto de esquerda e o linha de frente resolve limpar-se? Tem uma cambada dando pinta por aí, querendo ouvir o canto da sereia. Então fiquei esperta, esqueci. Era dia de Cristo e a lagartixa sabe em que pau bate a cabeça. Vida de rua, é isso. Essa coisa toda, uma referência, que seja.
— Cheiro verde, salsa, coentro.
Dia vai, dia vem, uma vez acerto no grupo, enrosco e quebro a banca, defino a situação, meto o pé, tomo um rumo. O camelo dezena trinta e um demora, mas o sustento é longo. Assim é vida de marajá, fim-de-semana blau-blau, sem correria, chapéu e hora de almoço. Bolso esperando, a bufunfa no esquema, semana que vem acerta, estufa o peito e, embora ainda sem garantias, já vive contente, curtindo o que merece. Pra mim não acabou. Alguma coisa tem que esperar, ficar pra trás. É decidido, fim de ponto.
— Cebolinha, pimenta-do-reino, manjericão e alecrim.
Então, faço a pimenta, calabresa, pimentão, malagueta, regadas com azeite, uns dentes, de alho, sem casca, liso, com cebolinhas, salsa, manjericão, ou não, depende, quem sabe? Uso aquele pote, de palmito, milho verde, o vinagre, sal, deixo curar, o gosto, com o tempo, a ardência, a fortificância, veja, pra comer com macarrão, farofa, carne assada, mal passada, batata, aquela malvada. Haja barriga. Corto a cebola, picada, quadrada, tanto faz, pétalas, já viu, assim? Refogo, tempero, pego ali e aqui, cheiro verde, cominho. Depois, arrepio, assobio, desarrumo, finalizo. Decreto feriado, amanhã é sábado. Ele que se arrume, dê seu jeito, vá sambar.
— Orégano, páprica, aipo, alho, alfavaca.
Não é mole, não é mole. Essa rua, quando chove. Nêgo confia. A gente olha, prega, reza, faz o cacete, não deixa por pouca miséria. E fica essa lama, o esgoto, o bafo do lafranhudo. Não sente? Eu que sofro, assumo. Fico aqui, vê? Vou misturando, socando, cortando, separando. Coisa pouca, que pra mim já basta, sou eu sozinha. E Deus, nosso. Não voto mais, certo? Uma conversa mole, um papo gostoso, tal, tal, tal, necas de pitibiriba. Pra mim o que importa é não sujar o pé. E meus temperos. Outro lance, vocês acham que essa caída, esse treme-treme meio leva e traz, é coisa do outro mundo? Quem disse que crente não dá seus pulos? Onde está escrito? Pra isso existe perdão, pra pedir. Gosto de um bole-bole, de um escorrega, vou falar. Aquele esfrega, um suadouro, o tiroteio comendo solto. Eu me jogo. Sem culpa. Depois me ajoelho, imploro, canto, evoco, aleluia. Tiro e queda. Cada um por si, Deus por todos. Tenho religião pra quê? Vou lá pagar, dar meu trocado, aquele contado, e não levo nada? É igual comida. A gente disfarça com tempero. Até titica fica boa bem temperada, veja só. Olha aí, do lado do louro, a bíblia. Penso besteira, faço e desfaço, pego, leio um versículo, pequeno, lorota, sapequei, a fila anda. Eu preciso sacudir! Sou velha, mas não morri, dou meus caldos. Pergunta, ele gosta. Igreja é pra gente viva, que está assim, lá no fundo, no merderê. Se fosse todo mundo santo não existia. Fico aqui o dia inteiro nas misturas, sei bem separar. Já chega. O doutor vai levar mais alguma coisa?
Tuesday, December 9, 2008
JUÇARA

Juçara
Raphael Vidal
“Aquela madrugada deu em nada, deu em muito, deu em Sol.”
[Vale Quanto Pesa | Luiz Melodia]
Não larga os guarda-chuvas. Automáticos, manuais, médios, femininos, super-minis com embalagens, automáticos dobráveis e os de cabo curvo longo, aos tantos. E não há nuvens. Só mais uma madrugada, escura, abafada. Ela caminha para casa. Largo, grande, sincero, o sorriso chegará antes. Os dentes brilham. Seu rosto é de uma clareza, boniteza, estranheza. Vem, chega, toma seu espaço. Antes, como uma parada, descanso, pausa pra respirar, relaxar os calcanhares, encontra o vício. Lá, conversa, faz amizade, vive. Gosta de música e tudo o mais.
— Uma mulher não deve vacilar.
Eu vou fazer cinqüenta e minha festa vai ser aqui. Eu quero fazer. Meu irmão se chama Luiz. Coisa linda, coisa linda, coisa linda. Antes de chegar eu tive que sair. Eu saí, eu fui, nem sei, mas fui e voltei. Eu viajei e voltei agora. Muitos anos. Não me importa se é branco ou preto. O importante é aonde chega qualquer um. Nem vem de conversa fiada comigo não. Pra mim, se me der um tiro de canhão, eu levanto depois. Nasci na Praça Mauá e fui transportada pra Baixada. Sou carioca. Hoje moro no Estácio. Vou andando isso tudo. Uma reta. Minha raiz é aqui, vou morrer aqui, nesse merderê. Ainda bem que amanhã não é segunda, é quinta e eu tenho um compromisso sério. São esses problemas de linguagem, morena, tropicana, melodia. Quando você não consegue uma noite agradável, você está perdida, é ou não é? O olhar da rua que é importante. O olhar, o olhar, o olhar da rua. Essa poesia dos ventos.
— Uma moça sem mancada.
Todos estão ali no mesmo sofrimento, fugindo dos mesmos erros, correndo das próprias escolhas. Quando canta, a mulher cheia de espinhos, voz aguda, faz alegria. Os copos se enchem e ela mergulha. Encarna, incorpora, mistifica. Avisa, aconselha, indica, tudo pela música. No bar, no balcão, na mesma mesa, os perdidos, desajustados, desregrados, amargurados, encantam-se. Naquela noite, em cada sorriso há aquele brilho dos dentes pra fora, de quem sabe uma ou duas coisas da vida.
Temperado.
Açafrão, Aipo, Alcaparra, Alecrim, Alho Poró, Alfavaca, Canela, Cebolinha, Cheiro Verde, Cebola, Coentro, Cominho, Cravo, Curcuma, Curry, Erva-doce, Estragão, Gengibre, Hortelã, Louro Manjericão, Mostarda, Noz-moscada, Orégano, Páprica, Pimenta Calabresa, Pimenta-de-cheiro, pimenta-do-reino, pimenta-malagueta, salsa, tomilho.
Começando três novos contos: Juçara, Açafrão e Livramento.
Aguardem…
Wednesday, November 26, 2008
Notas.
Pessoal, meu conto Conceição foi publicado no Algo a Dizer.
Lá, vocês podem conferir também, entre outras atrações, a entrevista com o diretor do filme Estômago, Marcos Jorge, que fiz junto com Áurea Alves e Gustavo Dumas.
Essa semana estou hospedando e ciceroneando o escritor paulista Claudinei Vieira, que veio lançar seu “Desconcertos” na Livraria Odeon e a escritora mineira Maria Emília Palha Faria, que também lançará lá na Primavera “O Fantasma do Tarrafal”, de Jean Yves-Loude, livro que traduziu.
Ah, sim. Recebi o convite de mais uma revista para publicar meus contos. Quando sair, aviso.
Então, contos só semana que vem.
Até breve!
Sunday, November 16, 2008
SUTURA

SUTURA
Raphael Vidal
“Reservo parte do dia para me informar sobre amenidades,
geralmente no balcão de um bar.”
[ Rodrigo Lima ]
Gengibre. Maracujá. Limão. Genipapo. Saideira. Ou não. Eles pedem uma gelada. Acompanhada. É fim de noite. A rua esvaziando, ficam os vadios, desalmados, insistentes. Depois, perguntam, ninguém sabe o motivo. Parece que esperam melhorar. Bebem para esquecer que bebem. É um hábito inexplicável, um prazer doloroso. A garganta molhada, a língua seca, o estômago vazio, a cabeça cheia. Pelos ouvidos, entre as conversas furadas, as frases sem eixo, os rumos desviados, a música é lenta, enrolada, confusa. De fora, tudo errado, ninguém quer, passam. Dentro, só uma preguiça, uma culpa gostosa. Não faz sentido, nada. Só mais um absurdo, automático. Alegria triste, sorriso envergonhado.
— Eu não pago.
No balcão, o cachaça, pinguço, pé inchado, enrola. Diz que não, apronta. É costume. Ninguém se vira, abre o olho, fica esperto. Isso acontece todo dia, madrugada. Deixa passar. Tiram como malandro Saci, que ao dar rasteira, leva tombo. Mas ele pisa firme, cerra o punho, mostra os dentes. Incomoda. Há os que fazem por dor. Precisam do flagelo, da queimação, aquela fisgada lá de dentro. São os que querem sentir. Alguma coisa, seja lá. Este se matar aos poucos, cruelmente, os fazem mais vivos. É complexo, afinal, como todo merderê.
— Já disse!
Então, age. Estes – homens – vivem o corpo. A ação é intrínseca, envolvida, enrolada, devedora, encachaçada, incorporada, satisfeita. Pega a ampola e quebra, está feita sua arma. Uma batalha contra o invisível. Aponta para seu passado, arruaça, esquece. Ele não existe. Grita. É vida que ele quer. Sangue. Espanto. Lá fora, estavam na última. Riam do acaso. Pediam licença pra caminhar. Até o grito, correria, ataque, furioso. E acertou. Fez-se o corte.
— …
Amanhece na sala de sutura, ficará a cicatriz, essa que um gole não os deixará esquecer.
Friday, November 14, 2008
QUECÉ

Quecé
Raphael Vidal
A gente se diverte com as erradas. Tudo brincadeira, zoação, peteleco. Por isso, não presto. Danço. Sou peixe e aqui tudo é tráfico. Isso, sinuca, Caracu, caiu as fichinhas? Fica esperta. A madrugada um dia te cobra e créu, velocidade cinco. Acende o farol. Vai e fica, enguiça. Malandro não existe, aqui na Mauá é todo mundo torto. Otário com sorte. Já fui, mas o exercício é outro. Não sofra por antecedência. Trocar o óleo a gente só faz por sentimento, calor humano. Tem que ser boa em pam, pam, tim, pam, pam. Um cartão de visita, uma boa entrada pra esse inferno gostoso, quentinho. Começa sempre do início, sete é conta de mentiroso. Aperta um aqui, pra relaxar, vai na freqüência, aquele ponto. Em pouco você está vendida, algemada, salmo 57 pro lixo. É hora, é hora. E só tenho vinte e um, federal.
— Fico mais ligado que televisão de rodoviária.
Enquanto não acha a certa, federal, esse furdunço engomado te leva. A mesa inclinada, a bola sete na caçapa e é a vez de Quecé. Acabou, jogo zerado. Nem adianta pedir penico. Aqui é ferro quente na boneca. Vamos todos seguindo por misericórdia. Você vê outro motivo? Sua presença está mais por fora que umbigo de vedete. Se perca. Tenho cinco meninas por aí. Filhas criadas. Cafetão é entrada pro fim. O diabo que te carregue! Sou um tipo, investidor, empresário, aposto alto, jogo limpo. A última que se meteu, cheia de firula, até agora bebe jurubeba quatro vezes ao dia. Quem tem medo de cagar não come. Isso aqui não é lugar de gente. Eu sinto muito. O resto é número, zero à esquerda.
— Quem entra pela saída não sabe de onde veio.
Vaza. Se adianta. Parte. Pica mula. Mia pra trás. Tá ligada, federal? Um mundinho esquecido. Só sombra e escuridão. Corre que dá tempo de pegar o 225. Sei tuas origens. Amanhã jogo na milhar. Vai dar porco e a carne é por conta. Viro rei nessa situação. Inverto as posições. Xis vira Zê. Nem adianta voltar. Aqui o tempo é outro. Mais rápido que seu desejo de faturar com o rebolado. Penduro aqui seu misto-quente, a conta é do papai. Caminhe com seu merderê. E não adianta ficar jururu, galinha que acompanha pato, morre afogada.
Monday, November 10, 2008
PENETRA

PENETRA
RAPHAEL VIDAL
“Para todos os que vivem, há esperança.”
[Bíblia – Livro de Eclesiastes, IX, 4]
Desvia. Sacode, assovia, finge. Pensa nas torradas, patês, no chutney de manga. O vestido, curto, as pernas, longas, aquele monte de varizes, manchas, pontinhos, furos. Croissant de bacalhau, atum com azeitonas, frango com catupiry. Desbotada. Purpurina, blush, cílios postiços, boca cor-de-rosa. Montada. Fígado de ganso. No cuscuz marroquino com tapioca ela abre a boca, sente o gosto. A mulher, velha, dentes marcados, sofrida, disfarça. E as lembranças. Risole de carne-seca, coxinhas, enroladinhos de ricota, espinafre, caldinho de aipim com molho bolonhês. Delícia. Ela quer entrar. É que a vernissage, o vinho de honra, o coquetel, sabe-se lá, desta vez, necessita de convite. E o prosecco? Elegante. Ou o cabernet sauvignon, pinot noir, hein? Aquele whisky, green label, água é pra pobre, faz render, caubói. E ela é daquelas que se convidam. O jazz de fundo, a bossa-nova? Aquelas conversas sobre literatura marginal, política do terror, música renascentista, arte realista, tudo aquilo lhe prende. Uma volta, duas voltas, cigarro, desvia. Ferréz, Monteverdi, Robespierre, Hopper. Cada nome. Ela ri. Desvia. Safa. Incomoda. Quem não tem paciência, não chega. Sossega. Lá vem. Era seu desejo ali, preso na alma, escorrendo pelo sangue, sentido em cada fôlego. A mulher amargurada tentava viver outro mundo. Sem convite, ataca.
— Sete e trinta e nove.
— Oito e seis.
Ela sabe o tempo, a chegada, tudo estudado, o perfume certo, o andar gostoso. Uma verdadeira dama nunca deixará de viver estes bons momentos. Aponta o nariz pro infinito, o olhar pro horizonte, empina, suave, um anjo. Bela recepção. Apenas segue o rumo e vai. Entra. A pessoa apronta quando precisa se virar.
